sexta-feira, 14 de junho de 2013

Daquele que resolveu fingir àqueles cidadãos de bem.

Fiz minha sentença.
Tudo estará bem com uma nova máscara.
Serei racista como vocês.
E tudo estará bem com uma nova vida.

Não haverá mais discordâncias.
O gosto amargo da subserviência
soará doce na boca.
E a sua boca sentirá o doce também,
até o dia em que eu me for,
neste dia, só tédio de gosto,
só a ausência de sabor.

Não existiram defesas em mim,
Advogado do diabo.
O diabo está em mim.
Com mais uma carreira de cocaína.
E uma carreira de menos vida.
Porque minha vida é o que acontecerá depois de vocês.
O que eu vivo até aqui é servidão.
É lamurio, é soco, é efusão.
Vida é o que há depois.

Hoje, para ser um pouco mais fingido, gosto de vocês.
Dessa amizade forte.
Dos ideais contíguos.
Do racismo amigo.
Da homofobia caridosa.
Da obediência necessária.
Da negligência corrupta.
Do pedantismo segregador.
Da apatia excludente.

Preso em tantos sensos comuns,
tive de ser comum também.

Então, fiz minha sentença.
Tudo estará bem com uma nova máscara.
Serei racista como vocês.
E tudo estará bem em outras vidas.
Estarão livres de mim, e eu, de vocês, também.



quinta-feira, 14 de março de 2013

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

cotidiano

Após um dia de piadas sobre macacos, veados e vacas, eu joguei aos ventos: "Me xingam, me caluniam, me torturam e, depois de tudo, acabam numa eterna sacrossantidade de desculpas e poréns". Tido suas atitudes expostas à mesa, disseram-me, então, que eu, que sempre me dizia me ser bom e amoroso, era intolerante, pois eu não aceitava certas opiniões.

Voltei ao sol, sozinho, pensativo. Eu estava errado e estava sendo, certamente, intolerante. Eu demorei a entender isso: que as pessoas demoram a entender (e a minha arrogância volta), demoram a aceitar, estão cheias de paredes (paradas) que as impossibilitam de continuar. Se estou hoje sem essas traves, se estou hoje num grande campo aberto, não vejo nada além de fado. É a sorte que se aprisionou em mim. Após um dia de piadas sobre macacos, veados e vacas, eu me joguei aos ventos:


eu já dei essa sorte
a comi.
por manada fadada,
estou vivo agora,
a fodi.
objetivo a sede
e gozo além.
não quero o receio de ser milhares ninguém
minha unidade é singular,
sou milhares em um
não me contento com comum
gozo a gozo
sou milhões em um

 sorte terrena
poema
e o nada vale tanto quanto metida


faço essa mudança desumana,
que estraga o mundo,
para consertá-lo, para florescê-lo.
e para que o renasça nessa relva de prazer, que é um boquete apetitoso.


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Remorço (Um continho)

Remorso. Dizem que este não é boa companhia. E não é. Ele está agora mesmo sobre minha cama. Eu também estou, só que amarrado com uma mordaça na boca. Ele, o maldito remorso, me tortura como uma sádico disposto a maltratar o seu dominado. Eu choro e imploro que pare. Ele não para. Ele é cruel. Ele tem todos os utensílios para que a tortura seja eficaz. Ele quer ver sofrimento. No momento, minha cabeça sangra, meu corpo dói. Ele está pegando seu alicate para arrancar minhas unhas dos pés. Ele diz que, para cada unha arrancada, devo lembrar a morte daquela mulher, minha esposa. Ele arranca a primeira. E ela me diz o gosto do pau de outros caras. Ele arranca a segunda. E eu vejo as marcas do meu punho no rosto dela. Ele arranca a terceira. E eu ouço os gemidos tristonhos de uma garota que não quer ser estuprada. Ele arranca a quarta. E ela sente o gosto da minha porra em seu corpo já inerte. Ele arranca a quinta. E minhas mãos estão sobre o pescoço dela, ela cospe sangue. Ele arranca a sexta. Morto, seu corpo descansa e o sangue escorre em minhas mãos. Ele arranca a sétima. E coloco o corpo em uma mala. Ele arranca a oitava. E a mala nada no rio. Ele arranca o nona. O jornal estampa o desaparecimento da minha mulher. Ele arranca a última. E minha boca é invadida por uma arma de fogo.

É o meu fim. Sinto o gosto do cano do revólver. O torturador não poupa tempo e atira. O sangue sobe em minha cabeça. A voz dela chorando ainda encosta nos meus ouvidos, só agora sou capaz de ouvi-la. A falta de vida se espalha em meu corpo e eu sinto o gosto de suas lágrimas em meus lábios. O sangue da morte dela entra por minha boca e me estupra quase igual à maneira que meu pau a fazia engasgar. A bala continua a perfurar o final da minha vida. Sinto-me tonto. A respiração só respira lamento. Meus olhos já não veem mais nada.

Minhas digitais na arma e o criminoso sou eu.

Ensaio sobre o sentimentalismo

Começou-se a história pela empatia de um pelo outro. Gostaram-se de início. Conversavam que conversavam e, felizes, comemoravam a construção de um relacionamento que, diferente dos outros, se consolidou através de um encontro, e põe encontro, casual. Um deles, porém, apaixonou-se mais e, a cada dia que passava, se apaixonava mais. O outro não desenvolvia o amor apesar de ainda possuir uma grande admiração por aquele. O que amava demais passou a amar mais ainda, isto fez com que o outro se sentisse mal por não poder retribuir o afeto. Disse de forma direta ao apaixonado: "Tudo que posso te entregar é meu sexo, o meu amor pertence somente a mim." O outro retrucou: "Ama-me. Ama-me, por favor, o faça." A clemência do afetuoso sujeito só intensificava com o passar do tempo. "Deve obrigatoriamente me amar, se não o fizer, terei de matar-te." Às lágrimas, o que só tinha o amor para dar usava, agora, de ameaças para concretizar a sua paixão. "Desculpa-me as palavras, todavia tudo que posso te dizer é que o meu amor pertence somente a mim e, agora, você não poderá nem gozar do meu sexo." Ao ouvir estas palavras, afetuosamente e romanticamente, no dia seguinte, se suicidou. Havia uma carta ao lado do corpo que dizia: "Ama-me. Por favor o faça." O sujeito que só amava a si mesmo, ao ler o bilhete, continuou apenas a amar a si mesmo, jogou, pois, o bilhete no lixo e foi em busca de um relacionamento fortuito que pudesse o proporcionar não morte mas sexo.